Marina não lembrava a última vez que tinha parado para simplesmente olhar. Olhar de verdade para as coisas, não para a tela do celular, não para o relógio, não para a lista infinita de tarefas que parecia nunca terminar. O mundo tinha se tornado um lugar apressado demais, e ela, sem perceber, tinha aprendido a viver no automático.
Na manhã de 24 de dezembro, tudo mudou. Ela estava levando o lixo para fora quando viu seu sobrinho, Theo, sentado no chão do quintal, completamente hipnotizado por uma poça de água. De verdade, o menino nem mesmo parecia estar piscando de tão concentrada que estava naquele amontoado de água.
— O que você está fazendo aí meu querido? — ela perguntou, já preparada para apressá-lo.
— Shhiiiiiiiiii!— Theo colocou um dedo nos lábios sem desviar os olhos. — O vento está brincando de fazer desenhos.
Marina franziu a testa.
Desenhos?
Brincando?
Ela olhou para a poça. Era só água parada, no máximo dava para ver um reflexo do céu. Mas Theo inclinou a cabeça, e ela repetiu o gesto, meio sem jeito e então viu.
O vento realmente movimentava a superfície, criando pequenas ondas que faziam o reflexo das nuvens se transformarem em criaturas estranhas: um peixe enorme, depois uma tartaruga, depois algo que parecia um dragão meio preguiçoso.
— Viu? — Theo sorriu, satisfeito.
Marina sorriu de volta, surpresa com o próprio encantamento.
Enquanto o menino voltava a mergulhar o dedo na água, ela percebeu o cheiro do mato molhado depois da chuva. Reparou que o sol estava brilhantes e sentiu o calor pinicando a pele. Ouviu o som distante de crianças rindo na rua, e esse som, tão comum, de repente parecia música.

— Tia? — Theo chamou. — Quer ver outra coisa legal?
Antes que ela pudesse responder, ele pegou sua mão e a levou até o pequeno jardim da casa. Parou diante de uma flor amarela e inclinou o corpo em expectativa.
— Olha! Ela parece uma estrela deitada.
Marina viu de imediato. E riu. Uma risada que parecia ter ficado guardada desde a infância, esperando para ser libertada.
Caminharam juntos pelo quintal, e Theo mostrou tudo o que ela tinha deixado de ver: o formato de um coração na casca de uma árvore, uma formiga carregando algo maior do que ela, o caminho de pedrinhas que parecia levar para um reino mágico invisível.

Quando finalmente entraram de volta em casa, Marina sentia o peito mais leve. Theo correu para brincar de novo, e ela ficou alguns segundos parada na porta, respirando fundo.
Naquele dia, ela percebeu que a magia da infância nunca deveria desaparecer. Que as vezes nós adultos acreditamos que sabemos tanto da vida, até que um garotinho de cinco anos nos lembre como é enxergar o mundo pela primeira vez.
E, naquele 24 de dezembro, o mundo ficou pequeno de novo, do tamanho certo para caber no peito.
