Clay nunca imaginou que, ao abrir a velha caixa de madeira no alto do armário, encontraria um pedaço da vida de sua mãe que ela nunca nem mesmo tinha ouvido falar, mas deveria.
Entre fotografias amareladas e bilhetes soltos, havia uma carta cuidadosamente dobrada e já muito gasta, mostrando que havia sido lida e relida incontáveis vezes. Datada de trinta anos antes, a carta era um texto de amor: sincero e urgente. Falava de um homem chamado Miguel, ele narrava encontros que tiveram, promessas trocadas e sobre um futuro que sua mãe desejava, mas temeu.
Havia, no fim da página, uma frase sublinhada: “Se ao menos eu tivesse coragem de dizer.”
O diferente desta frase é que ela não estava escrita na caligrafia de Miguel, mas sim na de sua mãe. Em um envelope ao lado a resposta que sua mãe havia escrito para ele, mas nunca tinha tido a coragem de enviar.
Clay releu aquilo dezenas de vezes. Sua mãe, sempre tão prática, tão sensata, tão boa em cuidar de todos, mas aparentemente péssima em cuidar dos próprios sonhos. Ela não se sentiu traída, uma vez que seu pai abandonou sua mãe ainda grávida e ela nem mesmo o havia conhecido. Depois disso a mãe até tentou engatar alguns namoros, mas na correria do dia, Clay sempre foi sua prioridade, então ela simplesmente deixou aquela parte para trás.
Mas ali, bem em suas mãos, estava a prova de que palavras não ditas não desaparecem, elas se escondem em lembranças, esperando em silêncio até serem descobertas.
Na véspera de Natal, guiada por um impulso, Clay procurou o endereço escrito no envelope e saiu em busca naquele que poderia ser o grande amor da vida de sua mãe.
Ela encontrou uma casa simples, com luzes piscando na janela. O coração batia tão forte que ela precisou respirar fundo antes de bater à porta. Miguel abriu, ela não sabia como, mas tinha certeza que era ele.
O tempo havia marcado seu rosto, mas não havia apagado o brilho que ela imaginou existir ao ler suas palavras. Quando ela disse o nome de sua mãe algo nele despertou.
— Acho que isso é seu — Clay disse, estendendo a carta.
Ele a recebeu com mãos trêmulas, tanto pela idade quanto pelo nervosismo. Leu devagar, em silêncio, cada linha que nunca havia chegado. Quando terminou, havia nos olhos dele uma mistura de dor e ternura, como se o passado inteiro tivesse voltado para pedir uma segunda chance.
— Por que ela nunca me enviou? — perguntou, com a voz marcada pela dor.
Clay apenas balançou a cabeça. Ela não tinha a resposta para essa pergunta.
— Acredito que ela tinha medo do que poderia acontecer, mas olhando agora, acredito que ela sempre te amou. Por mais que tenha tentado ter outros relacionamentos nenhum deu certo, porque ela comparava todos com aquilo que você viveram juntos.
Miguel respirou fundo, mas não com arrependimento, e sim com alívio por, enfim, saber. Ele a convidou para entrar. Conversaram até tarde, compartilhando lembranças de uma mulher que ambos amaram de formas diferentes. Entre risos, lágrimas e histórias que completavam espaços vazios.

A mãe poderia não ser mais tão jovem, mas era justo que vivesse um amor arrebatador no tempo que lhe restava e foi com isso em mente que ela levou Miguel até a ceia de Natal onde eles puderam enfim se reencontrar.
Naquela noite, Clay percebeu que palavras guardadas demais não desaparecem simplesmente por não terem sido ditas, na verdade ela machucam, se transformam em nós e cicatrizes invisíveis.
Ela pensou em todo sofrimento que poderia ter sido poupado se mãe houvesse contado a Miguel o que se passava no coração e entendeu que essas palavras, quando finalmente são ditas (mesmo que tardiamente), têm força para mudar caminhos.
E assim, o Natal se tornou um recomeço que não devolveu o passado, mas criou o futuro.
