Quando faltam aplausos

Ela terminou suas tarefas tarde naquela noite. A casa já dormia, a rua estava quieta, e o mundo parecia não saber, nem se importar, com o que havia acabado de acontecer.

Sobre a mesa, papéis espalhados, uma xícara de café frio que ela nem lembra a que horas foi passado e a sensação estranha de não ter feito o suficiente.

Durante muito tempo, ela acreditou que conquistas só existiam quando alguém as enxergava e que vencer só tinha sentido se houvesse testemunhas do sucesso, de palavras bonitas, de aplausos. Cresceu ouvindo que sucesso faz barulho. Que quem vence é visto, aparece e é lembrado.

Só que a vida foi acontecendo de outro jeito.

Houve dias em que ninguém percebeu o quanto foi difícil sair da cama. Ninguém notou a batalha travada no caminho até o banho, o esforço para manter a voz firme, o sorriso educado. Houve decisões tomadas em silêncio, escolhas feitas sem plateia, renúncias que não cabiam em explicações simples e que muitas vezes ninguém nem mesmo ficava sabendo.

Ela aprendeu a comemorar em segredo todas as suas conquistas: um limite colocado em alguém inconveniente no mercado; Um medo enfrentado; Um não dito pela primeira vez para um parente chato. Pequenas vitórias que não rendiam histórias interessantes, mas mudavam tudo por dentro dela.

Teve momentos em que esperou, em vão, que alguém reconhecesse mesmo sem que ela tivesse anunciado ao mundo. Que dissesse “eu vi”. Que entendesse o peso daquilo, mas o aplauso nunca veio. E, por um tempo, isso doeu mais do que o cansaço.

Até que, numa noite como aquela, ela entendeu.

Entendeu que algumas conquistas não são feitas para serem exibidas. São feitas para salvar, para manter alguém inteiro quando tudo parece querer quebrar.

Ela olhou para o que havia construído, mesmo que pequeno e invisível, e percebeu que aquilo tinha custado coragem, persistência e amor próprio. Coisas que não pedem validação externa para existir.

Antes de apagar a luz, ela respirou fundo. E pela primeira vez, a ausência de aplausos não soou como fracasso, mas como prova de algo maior: ela tinha aprendido a se reconhecer.

E isso, finalmente, era suficiente.

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