O cheiro de madeira antiga e biscoitos de canela ainda pairava na casa, como se a vovó estivesse apenas no quarto ao lado, descansando um pouco antes da ceia. Mas naquele Natal, a mesa parecia maior, mais silenciosa, e cada canto guardava uma ausência que doía.
Vovó sempre foi o espirito do Natal e este ano parecia que seria totalmente impossível festejar. A família ainda assim havia tentado se reunir por memória a ela, e em uma tentativa de manter viva as tradições que ela passou tantos anos criando com tanto zelo.
No centro da sala, entre caixas de enfeites e fotografias espalhadas, estava o velho livro de capa vermelha, gasto nas bordas. Todos os netos sabiam da existência dele. A vovó o mantinha ele sempre por perto, dizendo sempre que era bom ter ele em mãos para quando precisasse, afinal nunca se sabia quando um bom livro poderia aliviar o fardo do dia.
A hora dela, infelizmente, havia chegado.
Ana foi a primeira a tocá-lo. Seus dedos tremeram ao sentir o relevo dourado do título apagado pelo tempo. Os outros se aproximaram, Lucas, Helena e João, cada um carregando sua própria saudade. Eles se sentaram no chão, juntos, formando quase o mesmo círculo de quando eram crianças e a vovó lia histórias daquele livro para fazê-los dormir, ou simplesmente para distraí-los do tédio causado por um dia de chuva quando não podiam sair para brincar.
Ao abrir o livro, entre as páginas amareladas, havia envelopes cuidadosamente colocados, cada um com o nome de um neto escrito na caligrafia alegre que todos conheciam de sua avó.
Ana abriu o seu primeiro. Dentro havia uma carta e uma fotografia dela pequena, com os joelhos ralados e o sorriso orgulhoso segurando uma bicicleta rosa. A carta era pequena e simples:
“Minha Ana, você sempre teve medo de cair. Mas amor, cair nunca foi o problema. Não se levantar, isso é que não combina com você. Sempre que sentir que a vida já te derrubou o bastante se lembre deste dia, que mesmo com o joelho todo machucado, você se levantava vez após vez, mesmo sabendo que provavelmente iria ao chão, pois sabia que a sensação vitória por conseguir andar sozinha sem as rodinhas valeria totalmente a pena, só para poder sentir a liberdade do vento nos seus cabelos.”
Lucas encontrou dentro do seu envelope um ingresso antigo de futebol, o dia em que a vovó ficou na arquibancada tomando chuva por horas só para vê-lo entrar em campo por nem mesmo cinco minutos. Em sua carta estava escrito:
“Lucas, meu querido menino, você se cobra demais. O mundo vai tentar te convencer de que vale menos do que realmente vale. Não deixe. Não meça seu sucesso e suas conquistas pelas expectativas dos outros, faça aquilo que te faz feliz. Não importa se o momento de felicidade irá durar 50 anos ou 5 minutos, o que importa é se você viveu eles intensamente e se você sente que valeram o esforço. Eu sempre vi o melhor em você, espero que você também possa ver um dia.”
Helena tirou de sua carta um botão de flor seco.
“Minha menina sensível e delicada, você sente o mundo de maneira muito mais profunda do que muitos de nós. Não peça desculpas por isso. A sensibilidade é o que mantém o coração vivo em tempos difíceis. Sei que as vezes você vê essa sua delicadeza como fraqueza, mas muito pelo contrário, em muitos dias você foi a luz que iluminou meu jardim. Assim como esta flor que você me deu naquele passeio que fizemos ao parque, mesmo delicada você teve muita dificuldade em arrancar suas raízes, pois por mais fina que ela parecesse por fora, o seu interior era forte para aguentar as tempestades da vida.”
Vendo a reação dos outros, João já estava com medo de sua carta, ao abrir encontrou um pequeno papel dobrado mil vezes, contendo o desenho torto de um foguete que ele havia feito aos 6 anos.
“Meu aventureiro, você é o mais novo entre todos, nunca pare de sonhar grande. E quando o medo aparecer, porque ele sempre aparece, lembre-se que enfrentar os desafios, mesmo com medo, é o que faz os astronautas verem as estrelas, conhecerem novos planetas e desbravarem o universo. Você não precisa deixar de sentir mesmo, mas em meio a ele encontre coragem para viver o novo.”
Quando todas as cartas foram lidas, eles ficaram em silêncio. Um silêncio que abraçava. As lágrimas vieram, e as lembranças eram como se a vovó estivesse passando a mão no cabelo de cada um. E, pela primeira vez desde que ela partira, eles riram. Porque nas palavras dela havia vida, presença, ali estava todo o carinho que ela sempre tivera com eles.
Naquele Natal, mesmo com um prato vazio na ponta da mesa, todos sentiram que ela ainda estava ali, cheia de amor, segurando cada um pela mão.
E o velho livro da vovó, antes apenas um objeto misterioso, tornou-se agora um tesouro sagrado. Um lembrete de que partidas nem sempre significam ausências. Às vezes significam apenas uma forma diferente de ficar.
