Havia semanas que Elly não dormia direito. A mesa do escritório era um território de exaustão: folhas amassadas como pequenas derrotas, xícaras que exalavam o cheiro velho de café frio, trechos riscados com a fúria silenciosa de quem tenta salvar algo que está escapando.
O romance que ela vinha escrevendo fazia dois anos, sua grande esperança (e que por sinal estava no prazo final para a entrega) tinha travado totalmente logo na última página.
Elly tentava terminar, buscava empurrar a história até o desfecho, mas o final escorria dela como água por entre as mãos. Mesmo sabendo o que ela queria que acontecesse com a trama não conseguia expressar com palavras e parecia que nada era bom o suficiente para o universo que ela havia criado.
Com o passar das noites ela começou a suspeitar que talvez não fosse mais escritora. Talvez fosse só uma mulher tentando alcançar a sombra do que já sonhou ser.
Na noite de Natal, enquanto a cidade cintilava em cores que ela não tinha mais energia para admirar, o silêncio dentro do apartamento parecia alargar sua solidão. Vencida pela mistura de cansaço e frustração, Elly apoiou a cabeça sobre o manuscrito e acabou adormecendo.

Foi então que veio o sonho.
Não era um sonho comum, ela percebeu logo de cara, mas um tão real que quase parecia vivo. O ar tinha cheiro, a luz tinha peso, e as páginas do seu livro viravam sozinhas, sopradas por um vento inexistente.
À sua frente, estavam eles: os personagens.
- Helena, com sua pose teimosas.
- O velho James, segurando a bengala com a dignidade que Elly lhe dera.
- E o menino sem nome, que era pura esperança.
Eles a olhavam com a ternura de uma avó quando sabe que o fim dos seus dias está próximo.
— Não nos abandone, pediu Helena, a voz trêmula tentando de todas as maneiras segurar o choro.
— Somos feitos de tudo aquilo que você ainda acredita que é., disse James.
O menino se aproximou, pegou sua mão com a leveza de quem irá compartilhar um segredo.
— Se você parar agora… a gente deixa de existir.
Elly sentiu o impacto daquelas palavras como quem reencontra algo que pensava ter perdido para sempre. Não era só sobre o livro o que seus tão amados personagens estavam tentando alertá-la. Era sobre ela mesma. Sobre a mulher que ainda acreditava em criar mundos, mesmo quando não conseguia manter o próprio em ordem. Sobre a parte dela que persistia, mesmo quando a esperança parecia ter chegado ao sim, e principalmente, sobre a versão dela capaz de sonhar.
Quando acordou, o relógio marcava poucos minutos após a meia-noite, ela sentiu o rosto úmido de lágrimas que ela nem tinha percebido ter derramado.
A cidade festejava lá fora, mas dentro do pequeno escritório acontecia algo maior, mais íntimo: a volta de um sopro de esperança. As páginas continuavam ali, esperando por ela. E pela primeira vez em meses, Elly não sentiu medo do final.
Pegou a caneta. E escreveu.
As palavras chegaram para ela com a força tranquila de quem volta a acreditar. Os personagens, agora silenciosos, pareciam acompanhá-la na escrita sabendo que aquele não era o fim, mas o início de algo novo.

Elly escreveu o final do romance naquela mesma noite e percebeu que ela estava cobrando do seu livro o mesmo que cobrava dela mesma: perfeição.
Ela queria que a história tivesse um fim tão épico, quanto esperava que o dela fosse, mas esqueceu que as vezes as coisas mais simples são capazes de se tornarem especiais quando se está ao lado das pessoas certas e que a vida não é sobre passar cada dia tentando fazer algo em busca do resultado final ou buscando algo que talvez aconteça no futuro.
A vida é sobre o agora e você deve aproveitar cada minuto com a preciosidade e a intensidade dele, e não esperar todos os dias pelo amanhã.
Quando colocou o ponto final, sentiu algo se realinhar dentro dela como uma luz discreta. Na madrugada de Natal, iluminada apenas pela luminária, Elly percebeu que as palavras que nasceram ali tinham algo que esqueceram por muito tempo: a verdade. E naquele instante, entendeu que não devemos buscar pelo fim feliz, mas pelo agora.
