O presente das gentilezas

Na manhã mais fria de dezembro, Caio encontrou uma pequena caixa azul repousando diante de sua porta. Não havia remetente, apenas uma etiqueta com uma frase escrita à mão: “Faça algo bom“.

Ele franziu a testa, curioso. Tentou abrir a caixa ali mesmo, mas a tampa parecia selada como se tivesse sido colada objeto com a cola mais potente que ele já viu na vida. Por mais força que colocasse, ela não cedia nem um milímetro.

Intrigado, Caio passou o dia pensando no enigma. De tarde, ao ver sua vizinha idosa lutar para subir as escadas com sacolas pesadas, ele pensou que alguém deveria ajudá-la, mas estava ocupado demais naquele momento para fazer isso.

Quando voltou para casa, correu animado até a caixa azul e tentou abri-la novamente, absolutamente nada acontecia. Nem um clique, nem um sinal de que a tampa reconhecia seu esforço.

Intrigado com o que poderia ter na caixa ele passou a noite inteira pensando e quando o sol já estava prestes a nascer ele jurava que havia encontrado a solução!

No dia seguinte, enquanto caminhava pelo centro, notou um homem tremendo de frio ao lado da porta de uma padaria. Sem pensar muito, Caio tirou o cachecol do pescoço e o ofereceu. O desconhecido agradeceu com um sorriso tímido que aqueceu mais que o próprio tecido.

Com o coração mais leve, Caio voltou para casa cheio de esperança. Mas, ao girar a tampa azul outra vez, o resultado foi igual: imóvel, impenetrável. Ele imaginou que sua ação não havia sido grande o bastante para surtir qualquer efeito sobre o presente.

Dali em diante, Caio começou a fazer pequenos gestos todos os dias, ajudar alguém a atravessar a rua, ouvir um colega que precisava desabafar, doar alguns livros que estavam parados em sua estante. No começo, ele ainda corria para tentar abrir a caixa depois de cada ato. Mas, com o tempo ele simplesmente esqueceu dela.

Os anos passaram e voltando para casa após ajudar espontaneamente um entregador que deixara a bicicleta cair, ele viu uma caixa azul e finalmente se lembrou da sua há muito esquecida. Olhando para ela Caio percebeu que já não fazia mais os atos de bondade por causa da caixa, mas porque gostava da sensação que cada gesto deixava no peito, como se, a cada ação, algo dentro dele se ajeitasse.

Foi então que Caio notou algo diferente e foi surpreendido ao vê-la aberta sobre a mesa, a tampa finalmente erguida, silenciosa. Dentro dela havia apenas um pequeno espelho de moldura simples, quase infantil. Preso a ele, um papel dizia:

O presente é você quando escolhe ser melhor.”

Caio sorriu sozinho, entendendo de repente o que custara tanto tempo para perceber: a caixa nunca fora um mistério a ser resolvido, e sim um convite. Um lembrete de que as pequenas gentilezas que oferecemos aos outros são, na verdade, presentes que devolvemos a nós mesmos e que só se abrem quando a intenção é verdadeira.

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